Desejos para 2007

January 10, 2007 by  
Filed under Artigo de Opinião

In Jornal de Negócios

Por Leonel Moura

Portugal que tanto se queixa de lhe faltar um rumo ou grande projecto mobilizador e que tanto tempo perde em queixumes e polémicas irrelevantes, não se dá provavelmente conta de que o mundo vai mudando a cada ano que passa e que até esta “nossa” Europa já não é o que era.

Esta semana entraram dois novos países e outros mais estão na calha.

Apesar da genérica mediocridade da classe política, dos egoísmos e sabotagens, a Europa lá se vai consolidando como o espaço político, social, cultural e económico mais interessante do planeta. Um espaço múltiplo, nas línguas e culturas, onde se mantém, contra os sinistros ventos do zeitgeist, o primado da liberdade individual, do direito e da dignidade humana. Não é pouco como se sabe. E é motivo de orgulho.

Por isso gostaria que neste ano de 2007 os portugueses dessem mais importância à Europa. O discurso do Portugal à deriva, esta permanente lamúria da identidade perdida, estes constantes apelos nacionalistas à esquerda e à direita, só nos podem afastar ainda mais daquilo que é o nosso destino civilizacional. Fazer parte da Europa é o grande projecto político das nossas vidas e a única coisa que nos garante um futuro possível. Pensar o contrário é contribuir para o atraso e uma pura perda de tempo. E o tempo também aqui é muito precioso. Lá para os lados do Leste outros, mais pragmáticos, vão empurrando o centro europeu para mais longe, tal jangada geográfica e política que nos devia dar muito que pensar. Perdidos nas muito religiosas e obsoletas polémicas do aborto e noutras questões menores os portugueses vão ficando para trás na cena europeia. Por culpa própria, por falta de visão e lucidez, por excessiva auto-comiseração, por impotência.

Assim, no topo da lista dos meus desejos para o novo ano gostaria de ver os portugueses ganharem uma maior consciência do seu destino europeu. E tomarem efectiva posse da Europa, como coisa sua, quando até agora só a pensaram como indulgente tia rica.

Não menos importante para o futuro do país é compreender o papel decisivo da inovação neste mundo global. Temos, pela primeira vez na nossa história recente, um governo que aposta seriamente na inovação científica e tecnológica como motor das economias e das mentalidades. Nunca como hoje se investiram tantos recursos na inteligência e na vontade de realizar. Nunca se abriram tantas oportunidades para os mais ousados e criativos. Não é aliás um acaso que o recente Prémio Pessoa tenha sido, muito merecidamente, dado a um “novo empresário”, António Câmara da Ydreams, que criou uma empresa extremamente inovadora e criativa, não só a nível da sua produção como na própria maneira, livre e mesmo bastante libertária, de funcionar. Portugal precisa, diria desesperadamente, de mais bons exemplos destes. E no fundo não é tão difícil assim.

Nunca é demais repetir que em matéria de inovação estamos todos no mesmo barco. Neste domínio são as ideias, e não os poderes materiais, que realmente contam. Hoje o professor do MIT e o jovem estudante de uma qualquer universidade portuguesa trabalham com as mesmas ferramentas e têm acesso à mesmo informação. Está toda na Internet. Incluindo os cursos desse mesmo professor do MIT.

Inovar é aliás a grande actividade reservada aos humanos no futuro. As máquinas logo tratarão de arrumar a casa e plantar as batatas.

Por isso gostaria que em 2007 os portugueses fossem mais exigentes nas suas capacidades e mais ousados nas suas realizações.

Por fim não se pode inovar sem cultura. E não só aquela cultura no sentido tradicional do termo, peças de teatro, exposições, literatura e cinema. Todas as expressões artísticas são importantes e desejáveis, mas a cultura é uma coisa muito mais vasta e complexa. Cultura é aquilo que nos destaca do nosso destino genético. É por excelência o fruto da inteligência humana, esse mundo artificial criado por em cima e tantas vezes contra o mundo natural de onde viemos. Cultura é a libertação do homem pelo homem.

Por isso gostaria de ver crescer entre nós uma verdadeira cultura do conhecimento, com maior destaque para as ideias, a racionalidade, a inteligência e menos atenção para as crenças, os misticismos, as ilusórias espiritualidades que só podem embrutecer as mentes e empestar a convivência social. Portugal preciso de dar um salto racionalista que só uma cultura do conhecimento pode garantir.

Mais Europa, mais inovação e mais cultura é o que desejo para os portugueses em 2007.

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