Cultura (d)e inovação
February 13, 2007 by Inovação & Marketing
Filed under Artigo de Opinião
É óbvio que o treino científico, que nos ensina a tudo questionar, é fundamental como atitude conducente à inovação.
Manuel J. T. Carrondo
In Diário Económico
A atitude corrente para quem aborda o tema da inovação, sobretudo na componente mais facilmente associável ao “choque tecnológico”, é de considerar que investir em recursos humanos qualificados e em equipamento resolve o “fosso português” de inovação.
Este tem sido o caminho seguido nos últimos vinte anos, em que paulatinamente Portugal tem visto crescente aposta na Ciência e Tecnologia (C&T), essencialmente paga pelo Estado. No entanto, não há relação automática entre esforço de I&D e inovação. Em relatório recente sobre a realidade Europeia de inovação, das vinte empresas com maiores financiamentos de I&D para suporte do seu negócio (onde se encontram Daimler, Siemens, Nokia, Glaxosmith Kline, Novartis ou Roche) nenhuma aparece no lote das 10 europeias mais inovadoras (incluindo Christian Dior, Cadbury Schwepps, Adidas ou Volvo) – sendo claro que se trata de mercados razoavelmente distintos.
É óbvio que o treino científico, que nos ensina a tudo questionar, é fundamental como atitude conducente à inovação. Mas esta aposta em C&T, necessária certamente, não é suficiente para implementar inovação no tecido sócio – económico português.
Primeiro, porque outros componentes como design, ‘marketing’, organização, desenvolvimento de produto são essenciais para alimentar a inovação com impacto na criação de riqueza e melhoria no estado de desenvolvimento de um país.
Em segundo lugar porque, mais do que literacia, competência científica e capacidade tecnológica, a inovação requer atitudes sócio-culturais abertas e flexíveis, interesse para aprender a aprender, empenho empresarial e organizacional, franqueza critica, criatividade e sociabilidade/inteligência emocional. Sendo certo que algumas destas características podem ser inatas o que é obvio é que o “ambiente social”, que estou a chamar “cultura”, vigente pode aumentar ou diminuir tais características de forma dramática, conforme as “cenouras ou chicotes” que, sobre cada um de nós, foram usados ao longo da vida.
Ora a cultura portuguesa – e talvez ainda mais nas elites – é imobilista, avessa à mudança, fortemente protectora de interesses corporativos, crítica do risco, punindo fortemente o falhanço (onde, aliás, muito se aprende!) ou a falência. Em última análise, características que definem uma ”cultura de submissão” na expressão de António Barreto. Nessa cultura de submissão, para cima (‘bottom up’), o patrão é que sabe e decide e, para baixo (‘top down’), os subordinados obedecem e não questionam. E como, cada vez que, finalmente, um subordinado que não usou nenhumas prorrogativas da cidadania ou participação plena e só obedeceu, chega finalmente a chefe, repete o autoritarismo autista que não entende que a franqueza crítica dos que de si dependem é a maior garantia que gerirá bem. Nesta cultura, medíocre atrai medíocre , ciclo que só se rompe quando, por acaso ou por importação de outro sistema, aparecem líderes que escolhem e promovem aqueles a quem reconhecem as maiores competências, se possível maiores que as suas, sem receio de serem “apeados” pois as boas organizações/ instituições assim se reforçam, progridem e criam lugar para todos.
Não adiantando analisar excessivamente a situação, para decidir se “galinha” ou “ovo”, para ”forçar a marcha” é fundamental reconhecer, no estádio actual, incipiente, de desenvolvimento da democracia portuguesa, que a inovação é uma ferramenta “micro”, a ser semeada, alimentada e crescida em pequenos núcleos, empresas e instituições onde seja possível ir mudando atitudes socio-culturais. E, colectivamente, procurar usar, dar a conhecer todos os sucessos que a (micro) inovação obteve para alavancar mais rápidas mudanças de cultura. Com as práticas inovadoras de alguns exaltada nos media como valor social que é e a concomitante utilização dos estímulos correctos, a inovação será copiada e impactará o “macro” em atitude virtuosa de emulação social.
E o tempo é agora pois, ao fim de vinte anos dormindo na “sombra da bananeira” europeia, a maioria dos portugueses percebe e aceita que há que mudar, inovando em caminhos originais, caminhos de futuro.






"Larry Darnell" on Thu, 15th Feb 2007 12:32 pm
Aconselho a estudar a abordagem de Hofstede, muito boa tanto a nivel da sociedade como das organizações para definir melhor a cultura nacional em comparação com outras culturas. Ele define a nossa cultura, como muito aversa à incerteza e com falta de individualismo.
Já agora gostaste de andar no IPAM?
Bom Blog! ;)
Bruno Silva on Thu, 15th Feb 2007 10:05 pm
Olá Alexandre, agradeço a sugestão de leitura e as palavras simpaticas.
Quanto à minha experiencia no IPAM, sim foi interessante, tal como nas restantes Universidades.
Temos boas instituições em Portugal, e em muitos aspectos não ficam nada atrás relativamente ao que se faz lá fora. Mas infelizmente a nossa sociedade também tem a mania de que o que é estrangeiro é que é bom.
Cumprimentos.